Gideões da Oração

A inércia e o ativismo

Façamos o que estiver ao nosso alcance, crendo que Deus fará o restante.

Muitos dos nossos erros estão relacionados a atitudes extremas. Enquanto algumas pessoas são preguiçosas, outras são excessivamente ativas. Um vive paralisado, enquanto o outro não para jamais.
A bíblia nos orienta contra a preguiça e contra o ativismo (no sentido do trabalho excessivo).
Salomão escreveu: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso. Olha para os seus caminhos e sê sábio” (Pv.6.6).
Não podemos usar a fé como desculpa para a inércia ou para a omissão. Deus não fará aquilo que for da nossa responsabilidade. A oração é importante e necessária, mas não substitui a ação adequada.
Diante do Mar Vermelho, Deus disse a Moisés: “Por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem” (Ex.14.15).
A palavra de Deus nos fala sobre o valor da ação e do trabalho. Entretanto, ela também nos ensina sobre o descanso e a nossa dependência de Deus, sabendo que há um tempo adequado para cada propósito (Ec.3).
Os israelitas podiam e deviam marchar. Contudo, não poderiam abrir o mar nem destruir o exército inimigo.
A lei de Deus para Israel diz: “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; nele não farás nenhuma obra ” (Ex.20.9-10). Aparentemente, o tempo para o trabalho seria muito maior do que para o descanso. Entretanto, devemos lembrar que o trabalho era apenas diurno (exceto para os sentinelas).
A preguiça é um erro, mas é também errado pensar que tudo se resolverá pelo nosso trabalho. Esta seria uma atitude humanista e incrédula.
Esse tipo de erro é levado, muitas vezes, para a espiritualidade, o que faz com que muitos acreditem que serão salvos pelas obras. Paulo ensinou aos efésios que a salvação vem pela graça de Deus (Ef.2.8-10).
O mesmo texto motiva os salvos à prática das boas obras. O que não adianta é “fazer” sem “ser”.
Muito tempo depois, uma nova carta foi escrita aos efésios, onde se lê: “Conheço as tuas obras e o teu trabalho… Trabalhaste pelo meu nome e não te cansaste. Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor” (Ap.2.2-4).
Uma frase comum a todas as cartas do Apocalipse é esta: “Conheço as tuas obras”. Aquelas comunidades eram muito ativas. Apesar disso, havia entre elas muitos problemas e pecados. Ativismo sem santificação pode ser algo inútil e perigoso. Obras sem amor perdem sua razão de ser e podem causar muitos males. Assim também é a oração sem fé, a doação sem generosidade e o agradecimento sem gratidão. Muitas “boas obras” são feitas com motivações erradas. A caridade que se faz para o benefício próprio, não seria apenas um disfarce para o egoísmo? O trabalho cristão não pode ser mecânico, mas a viva manifestação do Espírito Santo em nós.
“O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio” (Gál.5.22). Esta não é uma lista de ações, mas de virtudes. Evidentemente, vão afetar as ações, mas é a essência que está sob exame. Entretanto, a lista das obras da carne é mais voltada para as ações (Gal.5.19-21), não importando quão boas possam ser as intenções subjacentes.
Não podemos considerar que a vida cristã seja um conjunto de atividades ou simplesmente uma espécie de prestação de serviços para Deus. É claro que devemos servi-lo, mas, antes de tudo, precisamos conhecê-lo. Um dos aspectos perigosos do ativismo é o trabalho sem conhecimento suficiente. É o “fazer” sem “saber”.
Jesus Cristo poderia ter pregado o evangelho e feito milagres durante os 33 anos que viveu aqui na terra. Entretanto, não foi assim. O tempo da sua vida foi dividido e organizado de acordo com o propósito de cada época.
Depois de ter escolhido seus discípulos, Jesus poderia tê-los enviado pelo mundo afora para pregar, mas isto só aconteceu depois de 3 anos de ensino e após o recebimento do Espírito Santo.
Jesus fez em 3 anos o que nenhum de nós faria em 30. Finalmente, ele fez em 3 dias o que não faríamos em 3000 anos. Guardadas as prerrogativas divinas, temos na vida do Mestre um grande ensinamento sobre propósito, foco, tempo certo, aprendizado e poder . Assim, ele conseguiu, em pouco tempo, grande resultado, com eficiência e eficácia.
É sempre importante lembrarmos o episódio envolvendo Marta e Maria (Lc.10.38-42). Marta estava tão atarefada que não tinha tempo para ouvir o Senhor Jesus. Este é um dos piores aspectos do ativismo: a falta de tempo para Deus. Podemos estar tão ocupados fazendo a obra de Deus, que não nos dedicamos ao Deus da obra.
Jesus não disse que Marta estava fazendo coisas erradas ou praticando pecados. Ela estava ocupada com seus afazeres domésticos, quem sabe preparando algo para o próprio Jesus, mas até as atividades boas e certas podem ser prejudiciais quando nos afastam de Deus.
Existe o risco de fazermos tantas coisas, enquanto deixamos de lado o mais importante; Podemos fazer muito e não ser exatamente o que Deus mandou. Algumas pessoas trabalham tanto que não acompanham o crescimento dos filhos. Ganham o mundo e perdem a alma.
O excesso de trabalho pode ser normal em algumas ocasiões, por uma questão de necessidade ou responsabilidade. É importante, porém, que tal situação seja de curta duração. Muitas vezes, o ativismo é fruto da ansiedade e da cobiça. Trabalhamos mais para termos mais dinheiro e comprarmos mais coisas.
“Todo o trabalho do homem é para a sua boca, contudo nunca satisfaz a sua cobiça” (Ec.6.7).
Faça alguma coisa, mas não tente fazer tudo. Trabalhe, descanse, mas cuide também da família e da saúde. Além de trabalhar, é importante crer e esperar.
Alguns precisam trabalhar mais; outros precisam descansar. De vez em quando é necessário interromper o corte das árvores para amolar o machado. Que Deus nos dê discernimento e nos ajude a encontrar o ponto de equilíbrio.

Pr. Anísio Renato de Andrade

gideoes24h.com

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